Por anos, eu vivia como cigana (assim diria com orgulho minha avó paterna) entrei e saí, de lares que me adotaram, lares que me alimentaram (alguns não tanto) e que me davam o básico para minha sobrevivência. De alguns saí ferida fisicamente, de outros com traumas psíquicos incontestáveis, de poucos saí com saudade, mas sem dúvida nunca sai de nenhum sem que eu tivesse amadurecido pelo menos uns 5 anos além da minha idade.
O primeiro lar que saí foi o da minha origem, saí para ser feliz e por não conseguir conviver com o vazio e a solidão de uma família que ali já não existia.
No segundo, sai por me sentir oprimida, por mais que eu amasse imensamente quem me adotou. Foi o lugar que mais doeu sair, até hoje carrego a culpa por não ter aguentado mais tempo.
No terceiro, sai por desnutrição e por falta de uma certeza que eu era bem-vinda. Sempre fui muda para falar sobre mim em alguns espaços, e lá a minha ausência de fala me gerou 10 kg a menos em 4 meses.
No quarto, eu sai por ter sido abusada em todas as dimensões que existem, saí por ter sido invadida, oprimida e tratada como uma ação de caridade, uma menina sem pai e mãe, e não como um ser humano que eu sou.
O quinto lar que passei, foi sem dúvidas o mais breve, uma vez que durou apenas uma semana, mas, foi sem dúvidas o que me libertou das humilhações do lar anterior, que me fez sair do ciclo doentio da minha família sanguínea.
No sexto lar, eu pude viver e ser feliz de novo. Fui acolhida por uma mãe que amava imensamente sua filha e que felizmente aceitou me dar uma parcela daquele amor e cuidou de mim por meses. Foi um lar de muitas vivências e aprendizados, aprendi até a lavar roupa e ser responsável. Mas, eu me sentia presa e insegura, então migrei para outro lar.
No sétimo lar, eu encontrei minha mãe, que hoje carrego marcada em minha pele, no meu novo lar eu encontrei um irmão amoroso, que amei, cuidei e fui cuidada por anos. Nesse lar sem dúvida eu tive todas as minhas feridas sob cuidado materno, daquela mulher que me tomou como filha e que tinha orgulho de mim. Aquela professora me adotou e colocou em seu coração, me deu alimento para a alma e o corpo, ela foi em todas as reuniões de escola, todas as festinhas e todos os eventos que eu estivesse como protagonista, só para me aplaudir. Sair daquela casa foi difícil, mas algo em mim (meu ics) me falava que eu precisava ir atrás de algo, que ainda não sabia o que era.
No oitavo lar, eu já era uma jovem adulta, e por isso não era adotivo, foi a primeira vez que eu me senti inteiramente adulta, com responsabilidades e contas de luz no fim do mês. Tinha que fazer minha própria comida, cuidar da casa, e por anos eu tive comigo a melhor companhia que eu poderia ter, que era minha melhor amiga (Iaiá, é como eu a chamo). Recentemente (há umas 2 semanas) nos separamos, para melhor administrar nossas vidas.
No nono, e atual lar, eu estou escrevendo esse post. Estou escrevendo e gritando para meu melhor amigo Victor “amigo, eu tenho um lar, e depois de 10 anos eu não me sinto em um lugar que é inteiramente meu”.
Falava para ele que chorei olhando para as paredes, me perguntando se eu realmente merecia isso tudo, e no fim do áudio eu gritava “nossa, eu mereço sim. Olha minha história e tudo que passei, o quanto trabalhei, para ter um lugar onde por um tempo eu pudesse ficar e dormir em paz sem atender ideiais”.
Esse post não é para autopiedade, nem comoção de quem está lendo, esse post é uma tentativa de recapitular e ver o quanto eu andei, às vezes corri para estar onde eu estou hoje…
EM MEU PRÓPRIO LAR!
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