F UM OLHO QUE BRILHA - BIELA

UM OLHO QUE BRILHA

ATENÇÃO!

Esse é um artigo sem tanto teor lírico, mas recheado de metáforas que transbordaram. Boa leitura.

Eu sempre soube que iria embora, sempre soube que esse aqui não era meu lugar, e com algumas partidas no último ano essa certeza só aumentou dentro de mim. Mesmo sabendo que eu iria, eu precisei de um percurso árduo para convencer meu SuperEu que eu posso ser mulher e viver livre. Durante esse tempo, eu não conseguia ver nada, enxergar nada, tudo era escuridão, solidão e vazio. Falei para meu analista incontáveis vezes o quando eu sentia meu corpo perdendo suas forças, semelhante a perder sangue, eu me senti desidratada da vida. Então, questionada por um amigo, eu mudei de posição e comecei a movimentar minha vida novamente.

Continuo dizendo que vou embora, só que agora, diferente das milhões de vezes passadas, eu marquei data e um destino. E, a partir desse momento as coisas começaram a ganhar contorno e eu pude enxergar com um pouco mais de clareza. O passo seguinte foi escolher uma mala, uma em grande, onde junto com meu analista e meus amigos eu tenho colocado as roupas que me servem, e que me deixam confortável nesse novo caminhar, e tenho retirado todas as outras que estão apertadas e que há tempo estavam escondidas na parte escura do meu guarda-roupa.

Retirar essas roupas velhas, empoeiradas, apertadas e sem vida, tem me levado a crises enormes de sinusite, por vezes eu não consigo respirar e meus olhos se enchem a ponto de eu não conseguir disfarçar sua vermelhidão. Mas, tem sido um processo de muita liberdade também, pois, todas as vezes que tiro uma peça nova eu vejo uma outra possibilidade de espaços, que apesar de serem vazios, são meus e podem ser ocupados por sonhos, vivências e até mesmo aquele biquíni amarelo acompanhado de um pôr do sol na praia.

Mas, como diria Suy “viver não tem cura, e o amor é paliativo”. Assim sendo, e nisso acreditando eu tenho me entorpecido de muito amor, um amor que me é antigo e que me fez companhia incontáveis vezes durante a solidão da infância. Tenho amado Freud, Clarisse, Radmila, Calligaris, Basaglia e tantos outros que têm caminhado comigo durante as últimas semanas. Me senti sozinha várias vezes durante a vida, mas sempre amei grandes homens e mulheres presente em páginas, artigos e documentários, e com eles transbordei.

Tenho caminhado com cautela, sempre com um medo absurdo de me magoar e magoar as pessoas que amo (mesmo sabendo que não posso me responsabilizar por aquilo que sentem), caminhando com os livros e artigos nas mão eu sinto que estou segura e bem acompanhada, acompanhada por quem na infância foi lar e refúgio de uma angústia.

Me sinto viva de novo, motivada pela curiosidade e sede de um conhecimento sobre o mundo e sobre a mente humana. Voltei amar, amar através dos livros, amar as pessoas com suas individualidades, fragilidades e vivência. Voltei a ser a menina que lia para curar e nesse processo se curava, uma vez que agora já não se sentia sozinha com seus pensamentos profundos que por vezes transbordavam.


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